Dia do Orgulho Hetero: Qual é o seu problema?


Se você se ofende fácil, faz favor, pode ir saindo daqui agora, eu vou ser grossa alto padrão.

Ocorre que em São Paulo tá rolando um bafafá dos bons por conta da criação do Dia do Orgulho Hetero (notícia pra você desinformado aqui). Toda fauna e flora tem e-xi-gi-do que o Kassab vete o projeto de lei e o prazo pro homem fazer isso tá acabando. Pois bem, vamos parar com essa viadagem AGORA!

Pelo que eu to entendendo, neguinho tá achando preconceito criar o Dia do Orgulho Hetero. Eu sou meio burra, sabe, não consigo acompanhar a lógica da parada. Afinal, a moral da história é que você aí querido amigo gay pode se orgulhar da sua sexualidade, mas os heteros não? Sabem, isso é tão imbecil que chega a ser ofensivo para os heterossexuais e me atrevo a dizer que deveria ser vergonhoso para homossexuais.

O nome disso é preconceito. Ser contra o Dia do Orgulho Hetero só mostra a mediocridade deste movimento que quer espaço em tudo, desde que seu espaço seja maior, mais bonito e aplaudido por todo mundo. Porque os gays, lésbicas, transexuais, bissexuais (ai, enfim, a porra toda) podem bater no peito e dizer que se orgulham e os heterossexuais não podem?

Eu me orgulho da minha orientação sexual. E muito. Não existe ninguém no mundo com o direito de me dizer que isso é feio, que é errado. Por alguma razão que eu definitivamente não acompanho, se eu digo que sou bissexual ou lésbica o mundo acha lindo e eu tenho o direito de dar um chilique se alguém não aplaudir. Mas se eu sou heterossexual automaticamente perco o direito de me orgulhar, me torno uma preconceituosa querendo massacrar os diferentes. Sério? Como?

Antes de seu próximo ataque de pelanca sobre preconceito, se olhe no espelho.

Em tempo: primeiro que eu to defendendo o direito do orgulho heterossexual, não uma Parada do Orgulho Hetero. E convenhamos que a Parada do Orgulho Gay já não é forma de se exigir direito nenhum faz tempo (mas isso é assunto pra outro post). Segundo e extremamente importante: antes de me agredir nos comentários, você por acaso sabe qual a minha orientação sexual? Não, né? Então pense bem, porque não é a minha sexualidade que define a minha opinião.

Agora gays podem "se casar". E daí?

Semana passada o Supremo Tribunal Federal julgou procedente o direito à união homoafetiva. Means what? Quase porra nenhuma. Ou melhor, só metade do que lhes é de direito. No dia do julgamento eu estava na casa do Alan, amigo, gay e é advogado. E isso facilitou bastante meu entendimento sobre o que exatamente acontece. Porque né, gente, sem o Alan eu sequer teria entendido o que aqueles senhores estavam dizendo.

Entre muitas coisas, o Alan explicou que a união estável não é como o casamento, que os direitos são parciais e bastante cruéis na questão de herança. Mas tudo bem, porque gay ou não, ninguém casa esperando o dia de ficar viúvo(a).

No dia em questão, eu estava acompanhando o buzz pelo twitter e fiquei pasma com a atuação do Pastor Malafaia e outras figuras públicas, que se mostraram profundamente preconceituosas e medíocres, como é de se esperar daqueles que se crêem no direito de falar em nome de Deus.

Tudo isso até que foi suportável. O que me deixou chocada é que na enquete no Facebook, uma pessoa que eu conheço se declarou contra a legalização da união homoafetiva. Como é que pode, uma mulher, de 33 anos que conhece e circula entre homossexuais (pressuponho que deva considerar algum deles como amigo) ter uma mente tão estreita?

E tudo isso me leva a uma triste constatação: o que conseguimos semana passada foi uma grande vitória, mas ainda está muito longe de ser igualdade de direitos e mais longe ainda de ser um mundo - ou ao menos um país - de pessoas que se respeitam independente de suas diferenças.

Os eternos incompreendidos

Dois caras conversavam perto de mim no ponto de ônibus outro dia. Eu não estava acompanhando a conversa, mas uma frase me chamou atenção: "ah, cara, não fico com ela não. Enquanto ela não resolver se gosta de homem ou de mulher, nem pensar. E mesmo que resolva, é só pra dar um beijos, uns catos, não namoro com ela de jeito nenhum".

Pode até ser impressão minha, mas eu acho que os bissexuais são os maiores incompreendidos da face da Terra. O problema consiste numa das questões mais básicas do ser humano, o amor.

Por definição, um bissexual gosta de homens e mulheres. Também por definição, o grande amor de qualquer pessoa é um só. Ou pelo menos um de cada vez. Logo, alguma coisa vai dar errado, mais cedo ou mais tarde: se encontrar seu grande amor, vira monogâmico - homo ou hetero; ou então a fidelidade vai pro beleléu.

Claro que existem os relacionamentos modernosos, abertos ou ménages, mas vamos combinar que esse não é o ideal da maioria. Às vezes até tenho minhas dúvidas, será que o bissexual não é simplesmente um indeciso?

LGBT por dentro e por fora

A sigla já não é tão desconhecida, começou como GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), passou por inúmeras variações até chegar à grafia atual: LGBTTTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros e simpatizantes). Uma sigla enorme, que demonstra uma coisa clara: são indivíduos que lutam por seus direitos civis e representações, mas não são um grupo homogêneo. Às vezes acho que essa sigla é meio que uma reunião de interesses em comum temporários.

A verdade é que as letras da sigla se reúnem em manifestações públicas, mas não andam juntas. Cada uma dessas letras tem seu grupo, seu tipo de entretenimento, suas escolhas e são raros os grupos mistos. Gays, lésbicas e bissexuais se misturam eventualmente e só. Gays não têm amigos travestis, transexuais não saem com lésbicas e por aí vai. Posso fazer “n” combinações que não funcionam. Eu me pergunto porquê. Pelas limitações em relação à sociedade, todos - ou ao menos uma parte significativa - se reúnem. Por escolha, não se misturam, existe um certo “azeitamento”. Então calmaê, somos semelhantes ou divergentes? Estamos juntos ou separados? De fato, nos importamos uns com os outros ou só achamos conveniente aumentar o grupo para fazer volume na hora da pressão social?

Há alguns anos, minhas companhias de sair era um grupo em que haviam gays, lésbicas e heterossexuais, embora às vezes eu creia que nos aproximamos mais por desajuste social do que por qualquer outra razão. Sinto falta daquela mistureba... E lamento só ter acontecido uma vez.

Nem sempre é preconceito

Se tem algo que me incomoda no comportamento LGBT na internet é a paranoia com preconceito. Não sinto isso no dia a dia porque os gays com quem convivo são ponderados e pensam duas vezes. Mas na internet a intolerância chega a níveis absurdos. Qualquer coisinha é motivo para gritar e chamar alguém de homofóbico, machista, preconceituoso e em alguns casos de gay enrustido ou lésbica reprimida. Ai, que absurdo!

Nem todo mundo que abre a boca para expor sua opinião está implicando, é o-pi-ni-ão, sabe? Nem todo mundo vai jogar confetes e serpentinas, divergir faz parte da natureza humana. Não é porque eu acho um absurdo que criem cotas para homossexuais que eu sou homofóbica. Não sei se existe, mas eu não concordaria com a existência.

Imagine a seguinte situação: um casal homossexual se beijando loucamente na rua e várias “distintas senhoras” olhando de cara feia. Pronto, começa a ladainha: são preconceituosas, não aceitam a escolha, não respeitam e por aí vai. Ora pombas, se fosse um casal heterossexual se beijando loucamente na rua também haveriam várias “distintas senhoras” olhando de cara feia. A cara feia não é necessariamente porque o casal é homossexual. Pode ser também, mas essa não é a razão principal. O que está incomodando as pessoas não é a opção sexual, é o comportamento.

Ah, eu tenho o direito de fazer o que eu bem entender. Tem sim, meu filho, tem sim. Mas só não se esqueça que as pessoas tem o direito de não gostarem do que você faz. E tem até o direito de não gostar de você. Isso não é porque você é gay. Ou será que eu sou obrigada a gostar de todos os gays na face da terra? Nem a pau, Juvenal, conheço vários que eu considero completos idiotas. Não porque são gays, é pelo conjunto mesmo. Não é preconceito, porra!

Eu sou livre pra não gostar de quem eu quiser. E vou chamar de preconceituoso qualquer um que diga que eu estou errada, porque é assim que tenho visto LGBTs agirem nos portais, blogs, comunidades e twitter.

Casamento Gay

Para começo de conversa, vamos esclarecer que o assunto é legalização da união estável entre pessoas do mesmo sexo, porque "casamento" subentende um contexto religioso e eu não quero envolver religiões nessa conversa. A Argentina reconheceu o casamento gay (qual o nome politicamente correto, hein?) e desde então o assunto está ainda mais na moda.

Vi essa semana no Jornal Nacional que a Receita Federal está aceitando a inclusão de parceiros homossexuais como dependentes na declaração de imposto de renda. Desde que não tenham declarado independentes nos últimos cinco nos e a partir do ano que vem aceitarão sem restrições.

É uma vitória significativa, mas não é o suficiente, tendo em vista que a questão do casamento gay ser proibido no Brasil é uma confusão legal. Pela Constituição Federal, somos todos iguais perante a lei e os artigos do código civil que falam sobre o casamento dispõe sempre sobre 'os cônjuges', ou seja, podem ser homens e mulheres. Até aí tudo bem. Só que o artigo 1514 do Código Civil fala que 'o casamento se realiza no momento em que o homem e a mulher manifestam, perante o juiz, a sua vontade de estabelecer vínculo conjugal, e o juiz os declara casados'. É ai que mora a sacada; ai que disseram que só poderão se casar homem e mulher. O mesmo fora dá a CF que, mesmo depois de falar que todos somos iguais perante a lei, dispõe que 'para efeito de proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento' (artigo 226, parágrafo 3°).

A verdade é que a lei brasileira não proíbe o casamento gay, só precisa corrigir algumas coisas no texto. Assim quem sabe um dia eles possa ser aceito e entendido por todos, no mínimo pela maioria. Quem sabe até a minha mãe aceite gays nas novelas.

Consultoria Jurídica: Verônica Jardim. Não tenho palavras para agradecer a imensa explicação que a Vê me deu, inclusive usei algumas de suas palavras.

O mundo não está pronto

Saí comer uma pizza com o Hernan e como sempre milhões de partes dos nossos papos são dignos de post. Acabei escolhendo o assunto porque ele passou por uma situação que resulta nas mesmas conclusões da conversa que tive com minha mãe esses dias.

Vou preservar a privacidade do Hernan, mas para resumir ele achou que algumas adolescentes poderiam se chocar ao ver ele com o namorado. Tolice, as meninas agiram com a maior naturalidade.

Minha mãe, por sua vez, estava protestando contra o fato de haverem gays nas novelas. Isso que nós temos um casal de amigas lésbicas (já na casa dos 50 e tantos anos, quase a idade da minha mãe) e um casal de amigos gays que conhece a família inteira. Há anos, eu tento colocar na cabeça da minha mãe que ela tem dois pesos e duas medidas, porque aceita os amigos que temos, mas se choca com a mídia, seja realidade ou ficção. Ela acha que não está certo e ponto.

As duas situações levam a mesma conclusão: o mundo não está pronto para os homossexuais, mas isso é uma questão de tempo. Porque as próximas gerações, os mais novos, agem naturalmente. Quem não aceita são os mais velhos, a geração de nossos pais e avós, acostumados ao comportamento enrustido. Na verdade, se existem tantos homossexuais no armário, a principal razão disso são seus pais. Ou seus avós, vai saber.

Minha mãe não se acostuma com os gays nas novelas, assim como acha um absurdo comer peixe cru, não acha certo mulher sair sozinha pra balada, além de achar horrível que eu fumo e bebo. Não consigo mudar essas ideias dela, não dá para ensinar truque novo para macaco velho.