Amigos, amigos - sexualidade à parte?

Toda mulher tem um amigo gay. Nem que seja o cabelereiro, pelo menos um rola. Porque a questão do ponto de vista é extremamente importante. Uma amizade do sexo oposto com as mesmas preferências (digamos assim) é uma excelente solução para a maior parte das crises emocionais. Se em muitos aspectos gays e mulheres podem ser parecidos, em outros são totalmente diferentes e isso sempre nos leva a informações complementares. Conversando com gays, a gente se liga de coisas que não pensaria sozinha. E até onde me conste, acho que todo mundo merece uma amizade assim.

Por alguma estranha razão, essa amizade não funciona com pessoas do mesmo sexo. Heterossexuais e homossexuais do mesmo sexo não tem lá essa amizade tão bacana, sejam dois homens ou duas mulheres. Pode ser que aconteça, mas bora combinar que não é um montão, um ou dois. E isso meio que me incomoda. Ok, incomoda pra caralho. Rola um preconceito monstro entre as pessoas e nem sempre o preconceito parte dos héteros...

De certa forma, a gente se acostuma com o preconceito médio. Por exemplo, eu estou acostumada a sofrer preconceito religioso. Infelizmente, acostumada pra caralho. E quando alguém fala que é evangélico, eu já começo a me policiar com o que falo, pra evitar que queiram "tirar o demônio do meu corpo" e coisas do gênero. Outro dia fui tomar um café com um amigo e conheci um menino (19 anos, pra mim é menino) muito bacana. Depois, de papo no msn, ele falou que é evangélico. Pronto, me encolhi toda, me fechei pra evitar aquelas pedradas que costumam vir na minha direção e fiquei bem quietinha. Mas papo vai, papo vem e acabamos falando de religião. E não é que um pouco de conversa resolveu tudo? Ele não é preconceituoso, eu é que fui preconceituosa em relação aos evangélicos. Acertamos as aparas e somos bons amigos.

É nisso que eu penso às vezes, sabe? A gente se acostuma a sofrer preconceito e acaba por isso mesmo sendo preconceituoso. É irônico ver tantos homossexuais reclamando das coisas que sofrem sendo que em boa parte das vezes não precisava ser assim. O preconceito, meus caros, é uma via de mão dupla. Eu acho que vale a pena pensar com calma e carinho nisso.

Será que é sério?

Ontem eu vi um pedacinho do Fantástico, que eu odeio com todas as minhas forças. Mas eu tava na casa de uma amiga e sabe como é, em Roma faça como os Romanos. O quadro Me Leva Brasil falava da parada gay em Serra Talhada, a terra de Lampião. Eu não vou nem entrar nos méritos de quão absurdo é uma cidade louvar um homem que de fato não passava de um bandido.

O que me chamou a atenção foi a quantidade de comentários preconceituosos em tão pouco tempo. Porra, começa com o cara no museu falando que nunca iria porque é cabra macho, passa pela casa de evangélicos rezando cujo dono é o primeiro gay assumido da cidade e hoje deve ser o primeiro gay arrependido com seus comentários falando em nome de Deus. Sério, Deus devia contratar uma assessoria de imprensa especializada, porque a maior parte das pessoas que falam em nome Dele falam mais que eu - e olha que falar mais do que eu não é fácil, não.

Mas a cereja do bolo fica por conta de um comentário MUITO pejorativo. Maurício Kubrusly estava entrevistando uma família qualquer da cidade que não ia para o evento, mas o cara dizia não ter nada contra, respeitar as escolhas e blá-blá-blá. Aí o jornalista faz aquela pergunta gentil:
- Mas vestir uma camisa cor-de-rosa nem pensar?
- Ah, não, de jeito nenhum. Isso não mesmo!
Ora pombas, porque não? Eu vejo gays usando muito mais branco e preto do que rosa. Sinceramente eu sequer consigo imaginar porque se dar ao trabalho de fazer uma matéria cujo tom varia entre debochar e criticar pessoas. Mas para quem quiser, o Fantástico tá jurando que existe ex-gay e conta a história no blog do Me Leva Brasil, clique aqui. Sinceramente, acredito tanto nas boas intenções do jornalista quanto acredito em ex-gay. Ou seja, muito pouco.