O mundo não está pronto

Saí comer uma pizza com o Hernan e como sempre milhões de partes dos nossos papos são dignos de post. Acabei escolhendo o assunto porque ele passou por uma situação que resulta nas mesmas conclusões da conversa que tive com minha mãe esses dias.

Vou preservar a privacidade do Hernan, mas para resumir ele achou que algumas adolescentes poderiam se chocar ao ver ele com o namorado. Tolice, as meninas agiram com a maior naturalidade.

Minha mãe, por sua vez, estava protestando contra o fato de haverem gays nas novelas. Isso que nós temos um casal de amigas lésbicas (já na casa dos 50 e tantos anos, quase a idade da minha mãe) e um casal de amigos gays que conhece a família inteira. Há anos, eu tento colocar na cabeça da minha mãe que ela tem dois pesos e duas medidas, porque aceita os amigos que temos, mas se choca com a mídia, seja realidade ou ficção. Ela acha que não está certo e ponto.

As duas situações levam a mesma conclusão: o mundo não está pronto para os homossexuais, mas isso é uma questão de tempo. Porque as próximas gerações, os mais novos, agem naturalmente. Quem não aceita são os mais velhos, a geração de nossos pais e avós, acostumados ao comportamento enrustido. Na verdade, se existem tantos homossexuais no armário, a principal razão disso são seus pais. Ou seus avós, vai saber.

Minha mãe não se acostuma com os gays nas novelas, assim como acha um absurdo comer peixe cru, não acha certo mulher sair sozinha pra balada, além de achar horrível que eu fumo e bebo. Não consigo mudar essas ideias dela, não dá para ensinar truque novo para macaco velho.

Por uma vida menos ordinária

Por sugestão do Hernan Fernandes, lá vou eu falar da Parada da Diversidade, que aqui em Curitiba vai acontecer em 29 de agosto. As pessoas chamam de Parada do Orgulho Gay, não sei qual o nome certo, mas enfim, bora seguir a pauta.

A pergunta do Hernan foi será que temos motivos pra nos orgulhar? Eu não sei, temos? Se eu me enquadrasse na sigla LGBT, provavelmente não me sentiria representada pela Parada. Não que eu tenha alguma moral para falar dos outros, meu comportamento não é lá essas coisas e minha reputação não é muito melhor.

A questão é que não consigo considerar a Parada como algo além de um Carnaval, uma grande festa. Linda, ma-ra-vi-lho-sa, super divertida e nada mais. Se originalmente a Parada foi concebida como uma passeata em busca de respeito e exigência de todos os direitos dos cidadãos independente de sua orientação sexual, está hoje totalmente deturpada e qualquer exigência ou pedido será solenemente ignorado pelas autoridades. Da mesma forma que não vamos melhorar o Brasil com um belo discurso da Ivete Sangalo no circuito Barra-Ondina nem com samba-enredo.

Na verdade, vejo uma duplicidade nesse conceito de se orgulhar. Eu me orgulho de ser em eu sou, assim como considero que todo mundo deveria se orgulhar. Por outro lado, não concordo com o conceito de “classe” e suas representações. Sou mulher, mas não me orgulho de todas elas. Sou curitibana, mas chego a me envergonhar da falta de sociabilidade dos meus conterrâneos. Sou blogueira, mas acho um lixo 95% do que vejo na blogosfera. Sou publicitária, mas sinto uma profunda vergonha alheia pelo Roberto Justus e uns outros.

Depois dessas divagações, deixo vocês com a mesma pergunta: Parada do Orgulho Gay, será que temos motivos pra nos orgulhar? Não como indivíduos, mas como grupo. Temos?