Os eternos incompreendidos

Dois caras conversavam perto de mim no ponto de ônibus outro dia. Eu não estava acompanhando a conversa, mas uma frase me chamou atenção: "ah, cara, não fico com ela não. Enquanto ela não resolver se gosta de homem ou de mulher, nem pensar. E mesmo que resolva, é só pra dar um beijos, uns catos, não namoro com ela de jeito nenhum".

Pode até ser impressão minha, mas eu acho que os bissexuais são os maiores incompreendidos da face da Terra. O problema consiste numa das questões mais básicas do ser humano, o amor.

Por definição, um bissexual gosta de homens e mulheres. Também por definição, o grande amor de qualquer pessoa é um só. Ou pelo menos um de cada vez. Logo, alguma coisa vai dar errado, mais cedo ou mais tarde: se encontrar seu grande amor, vira monogâmico - homo ou hetero; ou então a fidelidade vai pro beleléu.

Claro que existem os relacionamentos modernosos, abertos ou ménages, mas vamos combinar que esse não é o ideal da maioria. Às vezes até tenho minhas dúvidas, será que o bissexual não é simplesmente um indeciso?

LGBT por dentro e por fora

A sigla já não é tão desconhecida, começou como GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), passou por inúmeras variações até chegar à grafia atual: LGBTTTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros e simpatizantes). Uma sigla enorme, que demonstra uma coisa clara: são indivíduos que lutam por seus direitos civis e representações, mas não são um grupo homogêneo. Às vezes acho que essa sigla é meio que uma reunião de interesses em comum temporários.

A verdade é que as letras da sigla se reúnem em manifestações públicas, mas não andam juntas. Cada uma dessas letras tem seu grupo, seu tipo de entretenimento, suas escolhas e são raros os grupos mistos. Gays, lésbicas e bissexuais se misturam eventualmente e só. Gays não têm amigos travestis, transexuais não saem com lésbicas e por aí vai. Posso fazer “n” combinações que não funcionam. Eu me pergunto porquê. Pelas limitações em relação à sociedade, todos - ou ao menos uma parte significativa - se reúnem. Por escolha, não se misturam, existe um certo “azeitamento”. Então calmaê, somos semelhantes ou divergentes? Estamos juntos ou separados? De fato, nos importamos uns com os outros ou só achamos conveniente aumentar o grupo para fazer volume na hora da pressão social?

Há alguns anos, minhas companhias de sair era um grupo em que haviam gays, lésbicas e heterossexuais, embora às vezes eu creia que nos aproximamos mais por desajuste social do que por qualquer outra razão. Sinto falta daquela mistureba... E lamento só ter acontecido uma vez.

Nem sempre é preconceito

Se tem algo que me incomoda no comportamento LGBT na internet é a paranoia com preconceito. Não sinto isso no dia a dia porque os gays com quem convivo são ponderados e pensam duas vezes. Mas na internet a intolerância chega a níveis absurdos. Qualquer coisinha é motivo para gritar e chamar alguém de homofóbico, machista, preconceituoso e em alguns casos de gay enrustido ou lésbica reprimida. Ai, que absurdo!

Nem todo mundo que abre a boca para expor sua opinião está implicando, é o-pi-ni-ão, sabe? Nem todo mundo vai jogar confetes e serpentinas, divergir faz parte da natureza humana. Não é porque eu acho um absurdo que criem cotas para homossexuais que eu sou homofóbica. Não sei se existe, mas eu não concordaria com a existência.

Imagine a seguinte situação: um casal homossexual se beijando loucamente na rua e várias “distintas senhoras” olhando de cara feia. Pronto, começa a ladainha: são preconceituosas, não aceitam a escolha, não respeitam e por aí vai. Ora pombas, se fosse um casal heterossexual se beijando loucamente na rua também haveriam várias “distintas senhoras” olhando de cara feia. A cara feia não é necessariamente porque o casal é homossexual. Pode ser também, mas essa não é a razão principal. O que está incomodando as pessoas não é a opção sexual, é o comportamento.

Ah, eu tenho o direito de fazer o que eu bem entender. Tem sim, meu filho, tem sim. Mas só não se esqueça que as pessoas tem o direito de não gostarem do que você faz. E tem até o direito de não gostar de você. Isso não é porque você é gay. Ou será que eu sou obrigada a gostar de todos os gays na face da terra? Nem a pau, Juvenal, conheço vários que eu considero completos idiotas. Não porque são gays, é pelo conjunto mesmo. Não é preconceito, porra!

Eu sou livre pra não gostar de quem eu quiser. E vou chamar de preconceituoso qualquer um que diga que eu estou errada, porque é assim que tenho visto LGBTs agirem nos portais, blogs, comunidades e twitter.

Casamento Gay

Para começo de conversa, vamos esclarecer que o assunto é legalização da união estável entre pessoas do mesmo sexo, porque "casamento" subentende um contexto religioso e eu não quero envolver religiões nessa conversa. A Argentina reconheceu o casamento gay (qual o nome politicamente correto, hein?) e desde então o assunto está ainda mais na moda.

Vi essa semana no Jornal Nacional que a Receita Federal está aceitando a inclusão de parceiros homossexuais como dependentes na declaração de imposto de renda. Desde que não tenham declarado independentes nos últimos cinco nos e a partir do ano que vem aceitarão sem restrições.

É uma vitória significativa, mas não é o suficiente, tendo em vista que a questão do casamento gay ser proibido no Brasil é uma confusão legal. Pela Constituição Federal, somos todos iguais perante a lei e os artigos do código civil que falam sobre o casamento dispõe sempre sobre 'os cônjuges', ou seja, podem ser homens e mulheres. Até aí tudo bem. Só que o artigo 1514 do Código Civil fala que 'o casamento se realiza no momento em que o homem e a mulher manifestam, perante o juiz, a sua vontade de estabelecer vínculo conjugal, e o juiz os declara casados'. É ai que mora a sacada; ai que disseram que só poderão se casar homem e mulher. O mesmo fora dá a CF que, mesmo depois de falar que todos somos iguais perante a lei, dispõe que 'para efeito de proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento' (artigo 226, parágrafo 3°).

A verdade é que a lei brasileira não proíbe o casamento gay, só precisa corrigir algumas coisas no texto. Assim quem sabe um dia eles possa ser aceito e entendido por todos, no mínimo pela maioria. Quem sabe até a minha mãe aceite gays nas novelas.

Consultoria Jurídica: Verônica Jardim. Não tenho palavras para agradecer a imensa explicação que a Vê me deu, inclusive usei algumas de suas palavras.